viernes, 4 de noviembre de 2022

Positividade tóxica (Svend Brinkmann) - Passagens

«A ciência moderna, mecânica, rejeitava as ideias gregas de propósito, sentido e valor na natureza. Em vez disso, a natureza era vista como um sistema mecânico que funcionava de acordo com certos princípios de causa e efeito, conforme formulados nas leis naturais. Como disse Galileu, “o Livro da natureza foi escrito na linguagem da matemática”. Na medida em que existiam propósito, significado e valor, eles eram projeções puramente psicológicas sobre uma natureza que, em si mesma, era desprovida de tais características. Sem me aprofundar, é aí que encontramos a inovação da ciência natural que – para citar a famosa frase do sociólogo Max Weber – “desencanta o mundo” ao mesmo tempo que “reencanta” a mente humana. É aqui que nós, em nossa era da modernidade, devemos buscar os aspectos essenciais da vida, isto é, éticas e valores. No entanto, também há um preço a pagar: esses aspectos são subjetivos e tendem ao psicológico, o que leva à ideia de importância do que está dentro de você e à religião do eu, como a chamei neste livro» (143).

 

«Em uma cultura na qual tudo está em aceleração, certa forma de conservadorismo pode ser a abordagem verdadeiramente progressista» (20).

 

«De fato, ser você mesmo não possui nenhum valor intrínseco. Em contrapartida, o que tem valor inerente é cumprir suas obrigações para com as pessoas às quais está conectado (ou seja cumprir seu dever). Se é ou não “você mesmo” enquanto faz isso é essencialmente irrelevante. [...] Em minha opinião, é melhor estar em dúvida sobre o que seus sentimentos viscerais significam – e sobre se você encontrou ou não a si mesmo – do que segui-los e perseguir esse vago conceito do eu de maneira bitolada. Quando aceitamos que o eu é algo impossível de definir e os sentimentos viscerais são pouco confiáveis, a própria dúvida se torna uma virtude» (37).

 

«A ideia de “assumir o caráter” é importante. Ao contrário de conceitos da psicologia popular como personalidade e competências (que você pode “trabalhar” e “desenvolver”), o conceito de caráter se refere a valores morais partilhados. O indivíduo que insiste em se manter firme e apoiar certos valores com base em seu mérito inerente – e, consequentemente, é capaz de dizer não quando esses valores são ameaçados – tem caráter» (58).

 

«O filósofo Anders Fogh Jensen chamou nossa era de “sociedade dos projetos”, na qual todas as atividades e práticas são concebidas como projetos frequentemente transitórios, breves e recicláveis. Ele descreve como nós, os indivíduos dessa sociedade, fazemos um overbook de compromissos e projetos na tentativa de usar toda a nossa capacidade – mais ou menos como fazem as empresas aéreas. Como nossos deveres se tornam meros “projetos”, eles são temporários, e nós os rejeitamos se algo mais interessante surge em nosso radar. Mesmo assim, a ideia predominante é ade que devemos dizer sim aos projetos. A habilidade de arrancar um entusiasmado “Sim!” é uma competência essencial na cultura acelerada, algo a se destacar em entrevistas de emprego. “Dizer sim aos novos desafios” é considerado inequivocamente bom, ao passo que um polido “não, obrigado” é interpretado como falta de coragem e indisposição para mudar» (62).

 

«Na cultura acelerada, a paz de espírito já não é um estado desejável. É um problema» (63).

 

«Autenticidade – [...] há muitas razões para ser cético em relação a esse conceito. Em vez de tentar ser autêntico a qualquer custo, o adulto racional deve se esforçar para manter um pouco de dignidade, o que presume a habilidade de controlar as emoções» (76).

 

«O conceito de neurose nem sequer consta nos sistemas de diagnóstico mais recentes. Grosso modo, a neurose era algo que afligia as pessoas em uma sociedade que exigia que elas se enraizassem, que fossem estáveis e ajustadas. Se falhassem em atingir esse objetivo, a neurose estava à espera, como um casaco pronto para ser vestido. Desde então, a mobilidade substituiu a estabilidade, e a moral é baseada não na proibição (você não deve), mas no comando (você deve). Previamente, as emoções deviam ser reprimidas, mas agora devem ser expressas. [...] O problema já não é o excesso de emoções, mas a falta. [...] O problema hoje não são as pessoas (abertamente) flexíveis, mas as pessoas (abertamente) estáveis: elas não possuem motivação suficiente, impulso e desejo de acompanhar as sempre demandas por flexibilidade, adaptabilidade e autodesenvolvimento. A categoria de transtorno mental que denota a falta d energia e vazio emocional já não é a neurose, mas a depressão. Atualmente, os problemas não derivam de emoções e desejos, ou seja, de querer demais. Em vez disso, houve uma mudança na maneira como “demais” é quantificado. E isso continua a mudar em uma sociedade que enaltece o desenvolvimento e a mudança como virtudes acima de todas as outras. Na cultura acelerada, não há querer demais. Os vencedores são os que querem mais» (77-78).

 

«Lá no século XX, o filósofo Charles Taylor analisou como aquilo que chamou de ética da autenticidade (ou seja, de que o importante é ser verdadeiro consigo mesmo) podia resultar em novas formas de dependência, nas quais as pessoas que estavam em dúvida sobre sua identidade precisavam de muitos guias de autoajuda. O que as deixava em dúvida sobre a própria identidade e levava ao risco de dependência? Taylor diz que isso ocorre porque começamos a adorar o eu de uma maneira que nos isolava do mundo em volta: história, natureza, sociedade e qualquer outra coisa originada em fontes externas. [...]. Se negamos a validade das fontes externas, só o que resta como base para a definição do eu somos nós mesmos. [...] É um paradoxo fundamental que a literatura de autoajuda celebre o indivíduo, sua liberdade de escolha e sua autorrealização e, ao mesmo tempo, ajude a criar pessoas cada vez mais viciadas em intervenções terapêuticas e de autoajuda. Afirma-se que a autorrealização resulta em adultos autossuficientes, mas, na verdade ela cria adultos infantilizados e dependentes que acham que a verdade está no interior deles mesmos» (105-106).

 

«Conhecer e ser capaz de lembrar do próprio passado é um pré-requisito para manter uma identidade relativamente estável e, por conseguinte, para nossos relacionamentos morais com os outros. Se queremos viver bem no sentido moral, é crucial que saibamos como refletir sobre nosso passado. Mark Twain disse que a consciência limpa é um sinal seguro de uma memória ruim» (124).

 

«O filósofo francês Paul Ricoeur em sua obra seminal O si-mesmo como outro, tentou mostrar que as pessoas só podem ser morais, no sentido estrito da palavra, se forem capazes de se identificar com sua vida como um todo ou como algo que atravessa o tempo como um continuum e é mais bem entendido como uma história, uma narrativa coerente. Ele pergunta, retoricamente: “Como o sujeito de uma ação poderia dar um caráter ético a sua vida como um todo se essa vida não estivesse reunida de alguma maneira, e como isso poderia ser feito, senão na forma de narrativa?”» (125).

 

«É absurdo ser eternamente móvel, positivo e focado no futuro, colocando o eu no centro de tudo na vida. Não somente é absurdo, como também traz consequências negativas para os relacionamentos interpessoais, uma vez que as outras pessoas são rapidamente reduzidas a instrumentos a serem usados pelo indivíduo em sua busca pelo sucesso, em vez de serem um fim em si mesmas, para com quem temos obrigações morais» (134).

 

«Antigamente, o problema era querer demais. Agora, o problema é que nunca seremos capazes de fazer o suficiente em uma sociedade que exige constantemente que façamos mais e mais» (135).

 

«Fundamentalmente, os seres humanos são vulneráveis, e não indivíduos fortes e autossuficientes. Nascemos como bebês indefesos; frequentemente ficamos doentes; envelhecemos, às vezes desamparados; e, por fim, morremos. Essas são as realidades básicas da vida. No entanto, grande parte da filosofia e da ética ocidentais se baseia na ideia de um indivíduo forte e autônomo, à custa de nossa fragilidade e vulnerabilidade, que forma praticamente esquecidas» (138).

 

«Quando o estoicismo chegou a Roma, a ênfase grega estava na importância da virtude, enquanto a paz de espírito era uma preocupação secundária. Os estoicos romanos também estavam preocupados com a virtude e o cumprimento do dever, mas consideravam a paz de espírito um pré-requisito para isso. Você não pode cumprir seu dever sem paz de espírito e, desse modo, ela era vista como parte da estrada para a virtude» (142)

 

«Se um leitor moderno perguntasse a Sêneca como aproveitar ao máximo sua curta vida, a resposta não seria viver o maior número possível de experiências, mas levar uma vida serena, com paz de espírito e as emoções negativas sob controle» (145).

 

«Não usei, mas indiretamente critiquei, a ênfase dos estoicos na importância do momento. Não acredito que a humanidade viva principalmente no momento, mas no tempo como uma estrutura extensa e contínua. O foco no presente e no poder do indivíduo para determinar como será afetado pelo que acontece agora se parece muito com a atual onda de autodesenvolvimento (“Você pode escolher ser feliz agora!”). Em minha visão, isso dá ao indivíduo uma responsabilidade grande demais pela maneira como encontra o mundo. Não acredito que possamos escolher livremente como seremos afetados pelo presente. Na extensão em que isso é um ideal estoico, eu diria que o estoicismo deve ser desafiado. Somos, em uma extensão muito maior do que os estoicos teriam aceitado, impotentes – e, de fato, perceber isso pode ser uma fonte de solidariedade entre as pessoas» (149). 


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