sábado, 29 de junio de 2013

Jonathan Coe - What a Carve Up ! (1994)



Este livro só ganhou em atualidade. Pensado como uma crítica ao thatcherismo inglês dos anos 1980 e sua classe dirigente (orgia de privatizações, desmantelamento do serviço social de saúde, ...) o romance se eleva a uma crítica do neoliberalismo global que, em particular, está tentando acabar com o estado do bem-estar social europeu, aquele precisamente ao qual aspira o Brasil.

“Eles todos têm sangue nas mãos. Está escrito na testa deles. Não se pode contar as pessoas que morreram por causa do Mark e do seu comércio obsceno. Dorothy matou o meu pai, dando-lhe de comer aquela porcaria; e Thomas cravou mais fundo ainda a faca, fazendo o dinheiro dele sumir como por encanto justamente quando precisava dele. Roddy e Hilary certamente contribuíram. Se a imaginação é a força vital das pessoas e o pensamento é o oxigênio delas, então é o trabaho dele cortar nossa circulação e o dela é garantir que todos fiquemos mortos do pescoço para cima. E aí eles se sentam em casa engordando com base nos ganhos e nós aqui, nos ferrando. Nossas empresas falindo, nossos empregos desaparecendo, nossos campos sufocando-se, nossos hospitais caindo aos pedaços, nossos lares entregues ao banco por não podermos pagar a hipoteca, nossos corpos sendo envenenados, nossas mentes se desativando, o espírito do país inteiro esmagado e tentando desesperadamente respirar. Odeio os Winshaw, Fiona. Olha só o que fizeram com a gente. Olha o que fizeram com você.
Talvez eu não tenha dito nada disso. Fica muito difícil me lembrar. (460-461).

“Assistindo a seus corretores de câmbio enquanto eles contemplavam febrilmente suas telas bruxuleantes, Thomas chegou tão perto quanto jamais chegara de sentir amor paternal. Esses eram os filhos que jamais tivera. Isso aconteceu durante a época mais feliz da vida dele, o início até meados da década de 1980, quando Margareth Thatcher transformou a imagem da City e tornou os especuladores heróis nacionais descrevendo-os como ‘criadores de riqueza’, alquimistas que eram capazes de conjurar fortunas inimagináveis do nada. O fato de essas fortunas irem direto para os próprios bolsos deles, ou dos empregadores deles, foi discretamente omitido. O país, durante um breve e impetuoso período, os reverenciou” (350).