martes, 8 de julio de 2008

Um Homem: Klaus Klump (Gonçalo M. Tavares)


Atenção: Nesta entrada se conta o argumento do romance.

Um Homem: Klaus Klump é a história da transformação de um homem em particular e de toda uma sociedade em geral quando a guerra eclode numa cidade que é invadida por forças inimigas estrangeiras. Klaus Klump é filho de uma família abastada, donos de duas fábricas, mas ele decide afastar-se dos pais e põe-se a trabalhar numa tipografia. Quer ser editor, «fazer livros que perturbem os tanques em definitivo». Klaus namora a sua vizinha, Johana, filha única de uma viúva doida de nome Catharina. A guerra vêm a interromper o amor quando ainda nem teve tempo de nascer. «A guerra interrompe.»

Um dia os soldados entram na casa de Johana e Catharina. Fecham a mãe no quarto do lado, agarram a filha e deixam que o soldado Ivor a viole. Quando Klaus chega tudo já se ha passado.

Klaus foge à montanha, junta-se com a resistência e lá conhece Alof. Antes da guerra Alof era dono de uma casa de instrumentos musicais. A sua mulher foi presa e queimaram a casa. Alof sempre vai com um balde cheio de flautas, mas já não as toca porque as flautas “já não sabem música”.

Numa de suas descidas na cidade, Klaus é seduzido e enganado por uma mulher, Herthe. Passa a noite com ela e pela manhã é apanhado pelos soldados invasores. «Herthe era uma mulher áspera. Nunca pensava no que já tinha sucedido. Entendia-se com os militares. As suas ancas já tinham entregado docemente vários guerrilheiros. Herthe era uma mulher que queria manter o seu jardim.» Um dia, Herthe chega em casa e os seus pais dizem-lhe que o seu irmão Clako, de doze anos, fugiu para a floresta.

Por enquanto, Klaus é colocado na prisão e é violado por Xalak, um dos seus companheiros de cela, com ajuda de todos os outros. Na cadeia «os dias não são diários. Os dias são divididos em meses: a manhã e a noite são dois mundos e um pode visitar o outro violentamente.»

Herthe casa com Ortho, um dos mais poderosos oficiais do exército. No casamento, a noiva fica dançando sem discrição com um jovem oficial, Ivor. Os soldados e as convidadas comentam o fato. E ao sair do banheiro, Herthe cruza-se com Clako, já mais velho, que vai vestido como um dos músicos e pede-lhe ajuda para matar o seu marido, que é o oficial mais importante que já ficou na cidade. «Quero que tragas o teu marido para a parte de trás das latrinas no final do baile.» O assassinato se consuma, os soldados demoram poucos minutos em aparecer e disparam ao homem que foge. Clako cai no chão. Clako vira um deficiente, vai precisar ajuda toda a vida.

Numa lógica que só a guerra pode explicar, Johana, que não sabia que Klaus tinha sido preso, aceita Ivor, o soldado que tinha-a violado e fica com ele. Ivor agora cuida da mãe e da filha. Porém, Klaus e Xalak, que conseguiram fugir da prisão se apresentam na casa, quando as duas estão sozinhas e violam-nas, Klaus a Johana e Xalak a Catharina. (E pouco tempo mais tarde, Klaus, com a assistência de Alof, matará Xalak. O nosso homem nunca esqueceu-se do estupro na cadeia.)

Ivor, quando chega de volta começa a ajudá-las, mas, depois de dos meses, interna Johana na mesma clínica que a sua mãe e este vai ser o último dia que a vê. Logo, Catharina, a mãe, morre.

Aos 31 anos Herthe casa com o rico Leo Vast de 53 e ganha um filho: Henry Leo Vast. E nesse mesmo período Herthe, sua mãe e seu marido procuram ao irmão uma moça que possua as condições econômicas suficientes para mantê-lo. Clako casa com Emília.

A guerra termina e Leo Vast fica com medo: «mas a família Leo Vast resistiu confortavelmente às mudanças. Era como se as mudanças políticas afetassem a base da sociedade, mas nunca chegassem aos andares mais altos. «O dinheiro é democrático, se necessário, e ditatorial. É a matéria flexível por excelência. Obedece às leis que ele próprio impõe: eis o dinheiro.» Mas pouco depois Leo Vast morre e a viúva Herthe fica dirigindo os negócios. E Klaus? Klaus volta à família. O pai já morreu e agora o filho dirige as fábricas. Herdeiros de dos impérios, um mais forte e o outro mais modesto, Klaus e Herthe negociam a sua fusão sentimental que têm de reportar grandes benefícios para a nova família milionária.

Era uma bela manhá, mas a visão de uma prostituta plantada na rua à espera dos seus clientes, escandaliza Herthe: «É o fim desta cidade.» Indignado, Klaus Klump decide apresentar um protesto formal ao presidente da câmara.

* * *

Um homem: Klaus Klump de Gonçalo M. Tavares não é um livro amável. Aliás, é um livro amargo, cheio de violência, sobre tudo sexual. Porém, é um romance carregado de razão e de verdade. Quando do que se fala é da guerra, qualquer que seja esta e lá onde for, não valem edulcorantes nem meias-tintas, e neste livro o escritor angolano-lisboeta não poupa dureza. Quatro violações se contam nesta história de transmutação de todos os valores, e quase todas são contadas com a normalidade que faz parte das situações e cenários dantescos. Para não me perder, tive que sublinhar e tomar notas dos acontecimentos que se sucedem ao fio desta narração rocambolesca e condensada. Apenas cento e trinta páginas que pedem bastante atenção.

Passei por vários estados de humor durante a leitura, ora gostava ora não gostava. Finalmente, decidi que este livro também não é qualquer coisa.

Para falar verdade, eu esperava encontrar algum tipo de crítica social em prosa poética. Prosa poética é todo o livro –Tavares é poeta-, mas esta história de guerra surpreendeu-me. O romance mostra muito bem a transformação de idéias e valores que sofrem as personagens durante e depois de uma guerra. Algumas mudanças podem-se compreender, outras são pura hipocrisia e covardia pura.

Enfim, trata-se de um texto corajoso que nem todos vão ter vontade de ler, e talvez aqui resida um dos seus elementos de valor.

Gonçalo M. Tavares, Um Homem: Klaus Klump, Editorial Caminho, Lisboa, 2003.

Blog de G.M. Tavares: http://goncalomtavares.blogspot.com

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