jueves, 4 de septiembre de 2008

Filosofia do Tédio (Lars Svendsen)

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«As grandes questões não são necessariamente as questões eternas; o tédio, por exemplo, só passou a ser um fenômeno cultural há cerca de dois séculos.» (11)

«Não acredito que possamos saber se o mundo parece sem sentido porque estamos entediados, ou se ficamos entediados porque o mundo parece sem sentido. Há aqui uma relação de causa e efeito provavelmente nada simples. Mas tédio e perda de sentido estão conectados de alguma maneira.» (18)

«Não há cursos de tédio oferecidos nas universidades, embora, muitas vezes, nos entediemos durante nossos estudos. Tampouco é óbvio que o tédio ainda possa ser considerado um assunto filosófico relevante, embora outrora o tenha sido. Na filosofia contemporânea, quase todo se tornou variação em torno do tema da epistemologia, e o tédio parece ser um fenômeno que escapa à estrutura da filosofia como disciplina. Ocupar-se com semelhante assunto será, aos olhos de alguns, clara indicação de imaturidade intelectual. É possível. Mas caso o tédio não possa ser considerado um assunto filosófico relevante hoje em dia, talvez tenhamos boas razões para nos preocupar com o estado da filosofia. Uma filosofia que se escusa de tratar da questão do significado da vida dificilmente merece que nos envolvamos nela. Que “significado” seja algo que possamos perder escapa à estrutura da semântica filosófica, mas não deveria ficar de fora da estrutura da filosofia como um todo.» (19)

«Uma vez que o homem, ha cerca de dois séculos, começou a se ver como um ser individual que deve se realizar, a vida cotidiana parece agora uma prisão. O tédio não está associado a necessidades reais, mas a desejo. E esse é um desejo de estímulos sensoriais. Estímulos são a única coisa “interessante” [...] e o interessante é aquilo que um momento depois, nos parece indiferente ou entediante. A palavra “entediante” está inseparavelmente ligada à palavra “interessante”; os dois termos se disseminaram mais ou menos ao mesmo tempo e sua freqüência cresce aproximadamente na mesma proporção.» (28-29)

«Uma propriedade do tédio é fornecer uma espécie de perspectiva da existênci
a, permitindo-nos compreender que somos completamente insignificantes em tão vasto contexto. [...] O tédio tem a ver com finitude e com o nada. É a morte em vida, uma não-vida. Na inumanidade do tédio ganhamos uma perspectiva de nossa própria humanidade.» (42-43)

«Freud afirma que “no luto, é o mundo que se tornou pobre e vazio; na melancolia, é o próprio ego”. Adam Phillips assinala ao comentar essa passagem: “E no tédio, poderíamos acrescentar, são ambos.”» (46-47)

«Para viver uma vida significativa, o homem precisa de respostas, isto é, de certa compreensão de questões existenciais básicas. Essas “respostas” não precisam ser completamente explicitadas, pois falta de palavras não indica necessariamente falta de compreensão, mas a pessoa tem de ser capaz de se situar no mundo e de construir uma identidade relativamente estável. A criação de semelhante identidade só é possível se a pessoa puder contar uma história relativamente coerente sobre quem foi e quem pretende ser. O tempo –como uma unidade do passado, presente e futuro- cria uma unidade no eu, e tempo e eu estão ligados por meio de uma narrativa. Ter uma identidade pessoal é ter a representação de um fio narrativo na vida, em que passado e futuro podem dotar o presente de significado. Não acredito que significado e identidade possam ser propriamente compreendidos independentemente do tempo e da narrativa. Para ser uma identidade, ser um eu, é preciso ser capaz de contar uma história sobre si mesmo, sobre quem se foi, quem se quer vir a ser e quem se é agora, entre passado e futuro. Narrar é uma prática ética. No papel de um narrador desse tipo, somos um parrhesiast, um contador da verdade. Estamos fundamentalmente contando a nós mesmos a verdade sobre nós. No entanto, para sermos capazes de contar tal história, temos de ser capazes de nos relacionar com os outros.» (83-84)

«Quem quer que tenha alguma vez sido atingido pelo Romantismo não será nunca capaz de abandoná-lo inteiramente. Não se pode recuperar uma inocência perdida. [...] Quem quer que tenha sentido não pode esquecer o que é sentir. Haverá sempre um desejo ou nostalgia de significado pessoal, de alguma coisa que realmente signifique alguma coisa.» (114-115)

«Warhol acreditou que o esquecimento erradicaria o tédio, porque o esquecimento
tornaria tudo novo: “Não tenho nenhuma lembrança. Cada dia é um novo dia porque não me lembro do dia anterior.” “Não fiquei entediado porque já o havia esquecido.” Warhol acreditou que é sua duração, como tal, que torna a vida entediante, e que o duradouro só pode ser transgredido através do novo. Mas o próprio novo torna-se rotina, e, assim, entediante. Adorno salientou, com razão, que a categoria do novo é uma negação abstrata do duradouro, e, portanto, coincide com ele: a fraqueza de ambos é sua natureza invariante.» (115-116)

«Estar num determinado humor não é meramente uma determinação ontológica do homem, pois constitui também uma condição epistêmica para as diversas maneiras pelas quais objetos podem transmitir significado. Um humor torna algumas experiências possíveis, outras impossíveis. Condiciona o modo como o mundo –portanto também todos os objetos e eventos- aparece para nós.» (123)

«O humor é uma condição para a possibilidade do conhecimento, abrindo o mundo como um todo. Assim, Beckett foi adequado ao mencionar (numa de suas primeiras obras) um “desânimo transcendental”, pois um estado de melancolia é transcendental ou pelo menos quase-transcendental porque torna possíveis certos modos de experiência. Experiências tornam-se possíveis em virtude de humores que lhes são adequados.» (124)

«”O tédio só é possível porque cada coisa, por assim dizer, tem seu tempo. Se cada coisa não tivesse seu tempo, não haveria tédio.” [Heidegger] Portanto, o tédio surge quando há uma discrepância entre o tempo da própria coisa e o tempo em que ela ocorre. Isso é uma tentativa de responder a questão relativa à essência do tédio.» (131)

«”Somente os que podem verdadeiramente arcar com um fardo são livres.” [Heidegger] Um fardo possível é a filosofia, pois a filosofia tem lugar na “sintonia fundamental da melancolia” (Schwermut).» (139)
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Lars Svendsen, Filosofia do Tédio, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2006
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